O ILUSÓRIO PODER DA GAMBIARRA

Recentemente assisti a uma palestra de um médico católico sobre a sexualidade humana nos planos de Deus. Numa pequena sala, para um seleto grupo de casais, ele mostrava através de slides projetados na parede, os órgãos reprodutores masculino e feminino, suas partes, funções, os tempos, os movimentos, as medidas, os números, a matemática, a química, a física, a prosa e a poesia, a música e a dança, a criatividade, a genialidade, o sopro do Espírito misturando homem e mulher numa insuperável obra de arte.

Na mulher, os ovários, as trompas, o útero, o endométrio, a vagina, etc. Esses os personagens dançando ao ritmo de uma música intitulada ciclo menstrual. Um verdadeiro balé, uma sinfonia. No homem, os testículos, pênis, canal deferente, uretra, vesícula seminal, tudo preparado, ensaiado, coreografado para introduzir milhares de participantes na dança, aliás, milhares não, milhões de dançarinos alucinados para bailar.

Tudo isso ali naqueles slides que representavam o poder de Deus. O seu poder exclusivo de criar a vida.

Em outro slide, o doutor destrinchava a manipulação que o homem faz dessa obra. Vasectomia, laqueadura, pílulas, enfim, todo o artefato bizarro da contracepção. Ali o homem impõe um hormônio, inventa um remédio, introduz um mecanismo, recorta de um lado, costura de outro, emenda, remenda, pinta e borda.

O homem, enfim, exerce o seu poder. Acontece que todo o poder que o homem tem foi dado por Deus. Inclusive o poder de negá-lo. Lembrei-me de uma passagem do evangelho:

“Pilatos então lhe disse: “Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar?” Respondeu Jesus: “Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado.”

São João 19, 10-11

Nas palavras de Chesterton, “se não houvesse Deus, não haveriam ateus”. Deus, portanto, deu ao homem, a todos os homens, ateus e crentes, deu até aos católicos, a mim, a você, o poder de negar a vida, o poder de assassinar, de manipular, de evitar. O estupendo poder de ter medo.

Numa frase do genial conto de Machado de Assis, “A Igreja do Diabo”, o Diabo diz: “Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.”

Quando Deus usa seu poder para criar a vida, Ele é um Artista. Quando o homem usa seu poder para negar a vida, ele é um empecilho.

Montei em minha mente dois grandes slides, um ao lado do outro. De um lado, a maravilhosa obra projetada por Deus, a fantástica Fábrica da Vida. De outro lado, o que o homem conseguiu fazer empurrando a Fábrica para um fundo de garagem.

Os slides que estavam do lado de Deus, naquele momento para mim formavam a imagem de uma grande obra de arte. Fiquei procurando uma comparação que me ajudasse a compreender esses pequenos e grandes mistérios que se projetavam na minha frente. Uma arte… com qual arte eu poderia comparar a criação da vida? Uma que eu acho incrível, majestosa, é a Arquitetura. As grandes construções do homem me impressionam, principalmente as catedrais. As belas catedrais me arrebatam. Acho que uma arte usada por Deus é a arquitetura. Sim, sem dúvida Ele é um grande Arquiteto. A obra prima da arquitetura divina é o corpo humano. É claro que o homem, quando vai realizar um projeto arquitetônico, necessita muito estudo, horas e horas de planejamento, ou talvez dias e dias de trabalho. Já Deus, como se brincasse de massinha, pega um pouco de barro e modela o ser humano. Projeta e executa a estrutura mais complexa de toda a natureza em poucas horas, ou minutos, não sei quanto tempo levou Deus para modelar o homem, menos de um dia com certeza.

Outra manifestação artística de Deus é a ópera. Isso porque esse corpo não vai ficar parado, ele terá uma história. Deus quer contar uma história através desse corpo. Nada melhor que a ópera já que a vida humana é um drama teatral acompanhado de música, diálogos e um enredo que emociona. Nunca assisti a uma ópera, mas pelo que dizem, emociona. Se for boa mesmo, vai emocionar. E toda encenação dirigida por Deus, emociona. Alguns meses antes dessa palestra médica que estou descrevendo, durante algumas reuniões do grupo da Igreja do qual participo, as pessoas contaram resumidamente suas histórias e, principalmente, a intervenção de Deus em suas histórias. Lembro-me perfeitamente que durante aqueles encontros um pensamento foi se confirmando em minha mente e no final daquele tempo eu tive certeza de que cada uma daquelas histórias de vida dariam um excelente livro, ou talvez um grande filme. E o motivo é óbvio. Qualquer ser humano que se deixa conduzir por Deus, ao menos um pouquinho, sai de um roteiro previsível e entra no mundo das surpreendentes e irresistíveis linhas tortas de Deus. Quando um espermatozoide encontra seu óvulo, ou melhor, quando o óvulo recebe seu tão esperado príncipe espermatozoide encantado, começa uma história a ser contada, uma ópera divina destinada a emocionar até os anjos.

Agora, veja só. Não é só de arquitetura e ópera que se faz um grande artista como Ele. Deus também é um grande chefe de cozinha. O verdadeiro e eterno masterchef. O evangelho está cheio de referências à banquetes. Deus cuida de tudo, do local, da organização, da comida, dos convites, ele até serve às mesas. Nos slides que representavam a obra de Deus, cabia a imagem de um banquete. Do mesmo banquete que o pai faz para o filho arrependido que volta para casa, do mesmo banquete oferecido aos servos bons e fiéis que administraram corretamente seus talentos, do mesmo banquete ao qual é convidado cada casal de óvulo e espermatozoide desde o primeiro momento em que se olham e se dão as mãos.

A conclusão que cheguei admirando aquelas projeções na parede foi a seguinte: Quando Deus e o homem exercem seu poder em relação à vida, a obra que surge desse poder é bem diferente:

De um lado, a obra de Deus é uma Arquitetura. Do outro, a obra do homem é um garrancho.

A obra de Deus é uma Ópera. A do homem uma gambiarra.

A obra de Deus é um Banquete de finas iguarias. A do homem é o cúmulo da gororoba.

Se Cristo é o caminho, o ser humano inventou o desvio. Se Cristo é a verdade, o ser humano inventou a desculpa. Se Cristo é a vida, o ser humano inventou a contracepção.

Mas não era para ser assim. Não, não era. Aquele médico, inspirado, disse uma palavra importantíssima, que eu ouvi, os casais ali ouviram e todos nós deveríamos repeti-la todos os dias: co-criação. Que palavra linda! Parece feia, mas é linda! Co-criação… Pois é isso que Deus deseja, que sejamos co-criadores da sua obra, não adversários. Quer nos pôr no caminho, nos jogar na verdade, nos abrir à vida. Ele quer que assinemos com ele suas obras primas. Mesmo sendo apenas lápis, podemos realizar sua arquitetura divina. Mesmo desafinados, podemos realizar sua ópera divina. Mesmo sendo apenas um pouco de sal, podemos temperar seu banquete.

Veja só. A obra prima da arquitetura de Deus é o corpo humano. A ópera de Deus é a nossa história. O banquete de Deus é a eternidade.

Deus quer que façamos com ele uma obra. Uma obra que tenha um corpo e uma história e que esse corpo, passando pela história, chegue à eternidade.

À essa obra chamamos comumente de filho ou filha.

Enquanto escrevo, meu pequeno chora. Preciso ir lá. Pego no colo e contemplo. Não é apenas uma criança a chorar, atrapalhando meu trabalho, adiando meu descanso. Ele é obra de Deus com participação minha e da minha esposa. Deus desceu do céu nele a sua Arquitetura, toda a sua genial capacidade de combinar bochechas com sorrisos. Desceu do céu sobre ele a sua Ópera, sua mania de dançar e cantar alegrias e tragédias. Desceu do céu sobre ele seu Banquete, sua capacidade inigualável de fazer festa.

Enquanto balanço a criança compondo mais uma cançãozinha de ninar sem sentido, outra me abraça a perna e também chora querendo o mesmo colo do irmão. Passeio com eles pela casa, carregando um, arrastando o outro. Chego na sala, a porta está aberta, ali fora, no alpendre, fica uma rede. Olho para essa rede e não resisto a um sorriso. Sabem por quê? Porque essa rede era meu ideal quando casei. Durante as visitas que fizemos para escolher uma casa para alugar, o primeiro item que me preocupava era se havia gancho de rede na parede. Eu sonhava em chegar cansado do trabalho e esquecer da vida por um breve momento  na minha rede querida. Já que não tinha intenção de passar no boteco para tomar umas, meu momento de relaxamento seria a rede. Era meu projeto de vida. Ter um tempo para deitar na rede. Era a minha obra.

Dezenove anos depois, a rede continua ali. Eu nunca me deitei nela.

Agora olho e sorrio, pois ali na rede, neste momento, tem quatro crianças brincando. Duas empurrando e duas sendo empurradas. Graças a Deus, duas crianças já foram para cama. Esses todos são projeto de Deus, fazem parte da sua obra na minha vida. São meus filhos. Com uma conta de somar rápida dá para saber quantos são.

Eu não seria capaz de idealizar isso sozinho. Ainda bem que, neste caso, não exerci meu poder de ter medo.

A palestra médica, naquele dia, chegou ao fim. As luzes se apagaram, todos foram embora e os slides continuaram no meu coração. O poder de Deus e o poder do homem.

Duas outras imagens se formam agora no meu espírito. De um lado, meus meninos e meninas, uns se divertindo na rede, outros chorando, alguns dormindo. De outro lado, o que era meu ideal, meu descanso merecido na rede. De um lado, a arquitetura divina, do outro, o garrancho humano. Minto, nem um garrancho não era, apenas um gancho.

Pois é… Duas obras, dois projetos de vida. O projeto do homem é ele mesmo. O projeto de Deus é sempre o outro.

A obra do homem é o raciocínio. A obra de Deus é a comunhão!


Photo by Ben White on Unsplash

Tio patinhas e nossa vida interior

Era um quarto escuro, meio bagunçado, cheio de teias de aranha, animais rastejando pelos cantos… Mas ali, num cantinho iluminado, uma pequena moedinha brilhou mais do que tudo o que havia ali.


Eu estava casado à 4 anos e tinha 3 filhos. Na minha cabeça, lá no incrível mundo do raciocínio lógico do homem pecador, me considerava um excelente e admirável católico, aberto à vida ( seja lá o que isso significava ), cumpridor exemplar do mandamento: “Sede fecundo, multiplicai-vos e enchei a terra.” Estava tranquilo quanto às minhas obrigações religiosas em relação ao sexo e ao casamento.

Mas naquele ano, Jesus veio, fez barro com um pouco de saliva e esfregou nos meus olhos. E minha vida se transformou para sempre.

Assistindo a uma catequese sobre a Teologia do Corpo de São João Paulo II, minha máscara caiu por terra. Eu tive que repensar minhas atitudes, meus conceitos de certo, errado, pecado, santidade, etc. Porque eu e minha esposa ainda usávamos de métodos não naturais para controle da natalidade. Não era nada assim muito planejado, um programa totalmente estruturado para não se ter filho de jeito nenhum deus que me livre de mais um – não, não era isso. Era só de vez em quando, pra garantir, uma coisinha aqui e ali… Não era nada de mais…

Pois é. Depois daquele encontro, de volta para casa, sentei e fiz o que já deveria ter feito antes de me casar. Li a encíclica “Humanae Vitae” do papa Paulo VI, e vi que, como se diz, a regra era clara. Eu não estava aberto à vida porque nem entendia o alcance desta expressão, Eu tinha separado aquilo que era inseparável, o significado unitivo e procriativo do ato conjugal. Mesmo sendo uma família que crescia num ritmo acelerado para os padrões modernos, nem por isso éramos exemplo de casamento fecundo.

Aquele barro jogado nos meus olhos me fez enxergar muitas outras coisas. A cegueira tinha me poupado de visualizar muita tranqueira acumulada no meu coração. Digamos que meu interior era um quarto escuro, sujo, sombrio, até assustador de vez em quando. Dava medo me encontrar comigo mesmo ali. Alguns animais nojentos de vez em quando eram vistos rastejando pelos cantos, Meu Deus, quantos pecados precisavam ser iluminados!

Foi então que me lembrei de uma das histórias preferidas da minha infância: a fortuna quase incalculável do Tio Patinhas. Aquela imagem deliciosa dele nadando e mergulhando numa imensidão de moedas. E o que tornava essa história genial era o fato de que tudo tinha começado com uma única e pequena moedinha.

Naquele dia, naquele encontro, ouvindo aquela catequese sobre a Teologia do Corpo, eu tinha conquistado a minha moedinha número 1. Pela primeira vez na vida percebi o valor do que a Igreja estava me dando. Pela primeira vez na vida descobri que eu poderia começar uma fortuna. Pela primeira vez na vida constatei que a Igreja era muito mais rica do que eu jamais havia sonhado.

Desde então tenho procurado aumentar esse tesouro. E quanto mais acumulo, mais vejo o quanto sou pobre. Quanto mais moedas vou depositando, mais nítida é a sensação de que é infinito o que falta a conquistar.

Pois eu te pergunto. Qual é a tua moedinha número 1? Qual foi o seu primeiro encontro com a palavra de Deus que fez seus olhos brilharem, fez seu coração arder? Qual foi esse encontro que te faria derramar de bom grado um vidro do mais valioso perfume nos pés de Jesus?

Talvez esse texto te faça relembrá-lo. Tomara que sim, E que essa lembrança nos ajude, eu e você, a limparmos esse quarto bagunçado que é nossa vida interior. Que as outras moedinhas que coletamos do tesouro da Santa Igreja nos ajude a darmos o devido valor à virtude da castidade, a limparmos de fato a sujeira entranhada em nossa lógica de pecadores,

A nossa vida interior é algo muito valioso. É, na verdade, o que nós temos de mais valioso. Nosso segredo, nosso tesouro. Que ninguém tem a chave. Ninguém sabe a senha. Somente nosso Pai, que vê no segredo, sabe calcular quanto vale o que ali está guardado,

Téo Lopes de Andrade

Três pérolas do tesouro de São João Paulo II

Traduzido e adaptado de Christopher West.

O mais renomado professor e promotor da Teologia do Corpo de São João Paulo II, o teólogo e palestrante Christopher West, enumerou em um artigo suas três citações favoritas, três pérolas retiradas do imenso tesouro das catequeses do nosso santo papa, fazendo um pequeno comentário sobre cada uma delas.

Depois de cada citação, entre parênteses, está indicado o número da catequese e o parágrafo de onde a citação foi retirada.

1

“O corpo, de fato, e só ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. Foi criado para transferir para a realidade visível do mundo, o mistério oculto deste a eternidade em Deus, e assim ser sinal d’Ele.” (TdC 19:4)

Esta é a declaração da tese de João Paulo II, o pincel com o qual ele pinta a totalidade de suas catequeses sobre o corpo. Nós não podemos ver as realidades divina e espiritual. Por definição, elas são invisíveis. Mas o corpo as fazem visíveis. Se estamos vendo o corpo corretamente, o que nós vemos é a história divina e espiritual sendo contada. Qual é essa história? Em uma palavra: comunhão. O corpo do homem não faz sentido por ele só. Nem o da mulher. Mais vistos à luz um do outro nós descobrimos o glorioso chamado à comunhão de uma vida de doação. E isto é um sinal da vida íntima de Deus, o que nos leva à próxima citação…

2

“Podemos deduzir que o homem se tornou “imagem e semelhança” de Deus não só mediante a própria humanidade, mas ainda mediante a comunhão de pessoas, que o homem e a mulher formam desde o começo. A função da imagem está em espelhar aquele que é o modelo, reproduzir o seu protótipo. O homem se torna imagem de Deus não tanto no momento da solidão quanto no momento da comunhão… Isto constitui, talvez, o aspecto teológico mais profundo de tudo o que se pode dizer acerca do homem… Sobre tudo isto, desde o princípio, desceu a benção da fecundidade, unida à procriação humana.” (TdC 9:3)

Aqui, São João Paulo II apresenta um importante e dramático desenvolvimento do pensamento Católico. Tradicionalmente, teólogos diziam que nós somos imagem de Deus como indivíduos, através da nossa alma racional. Isto é certamente verdade. Mas João Paulo II vai um passo além. Ele sustenta que a vida de doação em comunhão do homem e da mulher em “uma só carne” é destinada a espelhar a vida interior de Deus. Surpreendente. Muitas vezes, nossa noção de sexo é jogada na sarjeta. João Paulo II, expondo nossa sexualidade à luz purificadora do plano original de Deus, eleva-a a alturas inimagináveis. E isto nos leva a nossa citação final…

3

“O ethos cristão é caracterizado por uma transformação da consciência e das atitudes da pessoa humana, quer do homem quer da mulher, tal que manifeste e realize o valor do corpo e do sexo, segundo o desígnio original do Criador.” (TdC 45:3)

A palavra “ethos” se refere a orientação interior dos nossos corações – o que nos atrai, o que nos repulsa. Todos nós, por causa do pecado original, precisamos de uma reorientação sexual para atendermos ao plano original de Deus para o desejo sexual. No princípio, antes do pecado, o desejo sexual nada mais era que a experiência do desejo de viver e amar divinamente, à imagem de Deus. Desnecessário seria dizer que esta não é a maneira como nós experimentamos o desejo sexual depois da queda. Como essa citação deixa muito claro, viver uma vida Cristã não significa reprimir nossos desejos, mas sim resgatá-los. E existe um poder real fluindo da morte e ressurreição de Cristo para resgatar nossa sexualidade! Se continuarmos a deixar nossos desejos egoístas e luxuriosos serem crucificados com Cristo, ele permanentemente acenderá em nós um eros redimido que nos permitirá viver e amar à imagem de Deus. Senhor, nos ensine o caminho para essa transformação interior!

E quando Deus e o homem, cada um com suas regras e sua vozes, se deixam entrar na surpresa um do outro através da oração, nasce a maior e mais potente fusão entre eles, o Criador e a criatura, frente a frente, misturando-se um ao outro, dançando no meio das chamas.

A ORAÇÃO É O MOMENTO ONDE O HOMEM E DEUS SE SURPREENDEM UM COM O OUTRO.

Deus criou o mundo numa explosão. Uma explosão de amor que transformou o nada em tudo. Nós fomos criados no meio dessa força poderosa que a tudo impulsiona, movimenta e transforma. Dentro de nós também, esse combustível que recebemos nas origens ainda nos impulsiona, é o combustível do princípio que nos torna viajantes do espaço: do espaço que nos separa de Deus. Fomos criados pelo amor. Feitos para amar em movimento. Somos criaturas do gênesis. Fomos tirados do silêncio para a música, da paralisia para a dança, da fome para o banquete, do nada para a plenitude, da solidão para um abraço eterno.

COMO SER UM HOMEM BOMBA CATÓLICO

Dá para entender porque Deus resolveu criar o mundo numa explosão. No princípio, no começo de tudo, lá no gênesis. Afinal de contas, o que foi o Gênesis? Nada mais, nada menos que uma insuperável explosão de amor. E de tempos em tempos Deus precisa acender novamente o pavio, porque novas explosões são necessárias.

A palavra gênesis vem da raiz “gen”, que significa produzir ou fazer nascer. Daí surgem outras palavras como gerar, generoso, genética, genealogia, gênero. Nós vivemos atualmente em um mundo que desvincula a palavra gênero de sua origem, estamos inseridos em uma sociedade que insiste em esquecer que o gênero, ou seja, homem e mulher, foi criado por Deus, foi gerado lá no Gênesis graças a generosidade do Criador.

Em um excelente artigo, Christopher West escreve que o gênero de uma pessoa baseia-se na maneira como essa pessoa foi designada para gerar uma nova vida. Ou seja, o gênero não é uma construção social, mas determinado pelo tipo de genital ela possui:

“Enquanto as revoluções sexual e feminista do século 20 estavam certas em desafiar certos papéis convencionalmente limitados a um ou outro gênero, há dois papéis – um pertencente apenas aos homens e o outro apenas às mulheres – que são inalteráveis e absolutamente indispensáveis para a sobrevivência da raça humana: a paternidade e a maternidade.”

Uma sociedade que perde a noção de gênero torna-se uma sociedade degenerada. Ou seja, que perdeu as suas qualidades originais, que se estragou, que se corrompeu. Negar o gênero é negar que fomos gerados. É simplesmente afirmar que de uma hora para outra não precisamos mais ser seres-humanos. Não precisamos ser um ser. Meus Deus, que loucura! 

O que temos visto no mundo de hoje? Uma completa degeneração. O homem que entra numa paralisia espiritual, congela a própria alma. As consequências estão aí: uma desvalorização do corpo, uma destruição do corpo, uma monetização do corpo.  Ou seja, o corpo hoje é oferecido numa bandeja como um objeto de prazer a ser consumido. É adicionado a uma lista ou agenda como obstáculo a ser destruído. É despudoradamente exposto em prateleiras como um produto a ser vendido.

Perdemos o sentido do corpo e também o sentido da vida, pois o sentido da vida é o mesmo do corpo. Jesus Cristo, o sentido último de toda a criação, se encarnou, assumiu um corpo. A encarnação de Jesus deu ao corpo humano um significado divino.

Quando nos afastamos de Deus, quando este espaço que nos separa dele fica tão imenso, perdemos a capacidade de movimento, implodimos para dentro de nós mesmos, do nosso egoísmo, enfiamos o sentido da vida para dentro do umbigo, enfim, nos degeneramos.

A única solução para tal degeneração é, no dizer de São João Paulo II, voltarmos ao princípio. Pois, no princípio, não era assim. Lá, algum tempo depois da explosão, o criador nos fez homem e mulher.

“Somente retornando a verdade original nós podemos salvar a palavra “gênero” em um mundo que se desvinculou da realidade.”

Para retomarmos as rédeas da verdade, para darmos novamente ao corpo humano os significados que ele foi perdendo ao longo das ideologias e dos séculos, precisamos dar o devido valor aos ensinamentos de São João Paulo II. Estou falando da sua Teologia do Corpo.

Neste trecho do livro “Teologia do Corpo para Iniciantes”, Christopher West, citando o teólogo Gerge Weigel, autor da biografia do papa João Paulo II (Witness to Hope), mostra o poder explosivo dos escritos do nosso querido papa:

O teólogo católico George Weigel descreve esta teologia do corpo como “uma das mais ousadas reconfigurações da teologia católica dos últimos tempos” (..), “algo como uma bomba-relógio teológica, programada para detonar com dramáticas consequências (…) talvez no século 21″. Esta visão nova do amor sexual “apenas começou a tocar a teologia da Igreja, a pregação e a educação religiosa”. Quando, porém, ela se impuser plenamente – prenuncia Weigel – “produzirá um dramático desenvolvimento no modo de pensar, virtualmente, sobre todos os temas importantes do Credo” ¹

Deus criou o mundo numa explosão. Uma explosão de amor que transformou o nada em tudo. Nós fomos criados no meio dessa força poderosa que a tudo impulsiona, movimenta e transforma. Até hoje o universo está em expansão, ainda estamos sendo empurrados através do espaço movidos por essa energia criadora. Dentro de nós também, esse combustível que recebemos nas origens ainda nos impulsiona, é o combustível do princípio que nos torna viajantes do espaço: do espaço que nos separa de Deus. Fomos criados pelo amor. Feitos para amar em movimento. Somos criaturas do gênesis. Fomos tirados do silêncio para a música, da paralisia para a dança, da fome para o banquete, do nada para a plenitude, da solidão para um abraço eterno.

São João Paulo II começa suas catequeses sobre a sexualidade humana nos pegando pela mão e nos conduzindo ao princípio, nos convida a dar uma volta pelo paraíso, nos apresenta ao gênesis. Ele nos faz passear à tarde com Adão e Eva para entendermos quem somos e porque somos. Estas catequeses possuem um objetivo: colocar-nos de novo em movimento, injetar em nossos corpos o impulso inicial, abastecer-nos com o combustível do princípio. A Teologia do Corpo é uma bomba que a Igreja coloca em nossas mãos.²

Essa bomba precisa explodir. E como faz para ela explodir? Primeiramente precisamos nos familiarizar com a carga explosiva que ela contém. Essa carga é a beleza da verdade, no sentido de um fato concreto, de uma realidade objetiva que supera todas as teorias.

Não é bom que o homem esteja só“: essa era teoria que regia a vida de Adão.

“Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne”: essa foi a realidade que suplantou a teoria.

Adão viu naquela mulher uma verdade. A sua vida dependia daquilo. Na verdade, era muito bom pra ser verdade. Aliás, era tão bom, mas tão bom pra ser verdade que não tinha como ser mentira.

A Teologia do Corpo é a verdade da qual depende nossas vidas. A verdade que pode nos ensinar que a finalidade do nosso casamento não é uma teoria, que a beleza do amor entre marido e esposa não se limita a ficção, que aquela mulher que Deus pôs na minha vida é real, é carne da minha carne, a minha vida depende dela, o meu céu depende dela e a nossa relação pode ser o começo do paraíso.

A doutrina ensinada por São João Paulo II é tão boa, mas tão boa pra ser verdade que não tem como ser mentira. É verdade mesmo. Uma verdade de valor gigantesco. É um tesouro incalculável. 

Como é bom ser católico! Voltar ao princípio, ouvir de novo o eco da grande explosão. Sentir nosso coração em chamas. Anunciar a boa nova que não descansa, que não para nunca, que está sempre em movimento. Anunciar, anunciar e anunciar. Repetidas vezes, oportuna e inoportunamente. Como se oferece uma flor, como se detona uma bomba.


  1. Christopher West, Teologia do Corpo para Iniciantes
  2. São João Paulo II, Teologia do Corpo. O amor humano no plano divino

A maneira mais eficaz de surpreender a Deus!

Deus comunica o seu amor, a beleza do seu amor, a beleza da sua criação, através de duas vozes: a voz da Ordem e a voz da Surpresa.

Na natureza podemos ver claramente. Ela está cheia de ordem e surpresa. Com a voz da ordem, já na criação, Deus ordenou que cada fruto carregaria a sua semente, e ordenou aos animais viverem segundo a sua espécie, e assim, da semente de abóbora só nasce abóbora, as mexericas crescem bonitas alimentadas pelas raízes da mexeriqueira, beija-flor não come carniça nem urubu voa pra trás.

Mas a natureza também é surpreendente.

Daquele globo ocular anatomicamente perfeito e sujeito às exigentes leis da óptica, de repente brota uma lágrima. A lágrima nos surpreende, Deus nos surpreende. Bem no meio da nossa rotina planejada e programada nos diz: “pode chorar, meu filho”.

É através da surpresa que Deus mostra de maneira mais evidente a sua genialidade criadora. Através de sua voz poderosa.

A voz de Iahweh sobre as águas… A voz de Iahweh com a força… A voz de Iahweh sacode o deserto…A voz de Iahweh retorce os carvalhos…

Salmo 29

E ficamos fascinados porque o pensamento de Deus é assustadoramente livre. Com um ingrediente, a água, e uma ordem preestabelecida, a lei da gravidade, Deus constrói um curso de água, um rio. Mas a tranquilidade daquela água corrente se quebra com uma voz, a voz da surpresa: “Arrisca!”

E aquele rio que seguia tranquilamente o seu caminho subitamente se arrisca num salto inimaginável!


A maneira como um rio se arrisca em Deus recebe o nome de cachoeira.


Dessa maneira também vamos nós sossegadamente ladeira abaixo, quando Ele nos grita: “Arrisca!”

Isto nos surpreende e nos emociona. Nos emocionamos porque a natureza traz em si uma ciência, mas o viver e o morrer, isso é a surpresa. Nós, seres humanos, tudo o que fazemos, fazemos através de uma ordem, de um conhecimento adquirido. O bebê chora e percebe que os pais o atendem. Depois os pais passam a atender mediante a fala. A criança diz “água” porque aprendeu que falando ela alcança o seu objetivo, desde pequenina ela entende o valor da ordem. Um dia porém, minha esposa chegou do cabeleireiro, pegou meu filho de 2 anos no colo, ele já olhou meio desconfiado para ela, e ela disse: “Mamãe cortou o cabelo.” Ele sorriu e devolveu: “Você tá linda!”. Eis aí a surpresa. Não foi um simples comando, não foi um pedido, foi uma interação, foi um motivo para concluir que já tinha valido a pena viver só para ouvir aquele elogio, só pela honra de ter conhecido pessoalmente aquela criança.

É verdade, nós também sabemos ordenar e surpreender. E podemos surpreender até à Deus.

Deus domina todas as regras e, segundo as suas próprias regras, não interfere no nosso livre arbítrio e permite-se a si mesmo a surpresa que é o próprio homem. Sim, podemos surpreender a Deus porque ele quis ser surpreendido.

Diante da viúva que carrega seu filho morto, Jesus se comove. Em Jesus Cristo, Deus quis se comover.

Ele quis se comover com nossas fraquezas, ele quis se surpreender com nossas escolhas. Jesus não imaginava a resposta daquele centurião que pedia a cura para um dos seus empregados.

“Senhor, basta que digas uma palavra e meu criado ficará são. Com efeito, também eu estou debaixo de ordens e tenho soldados sob o meu comando, e quando digo a um ‘Vai!’, ele vai, e a outro ‘Vem!’, ele vem; e quando digo ao meu servo: ‘Faze isto’, ele o faz.” Ouvindo isso, JESUS FICOU ADMIRADO e disse aos que o seguiam: “Em verdade voz digo que, em Israel, não achei ninguém que tivesse tal fé.”

Mateus 8, 8 – 10

Na escola, na aula de português, nós aprendemos a fazer a análise sintática das frases. Agora vamos pegar essa frase do centurião e fazer uma análise imaginática. 

“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa; basta que digas uma palavra e meu criado ficará são.”

A primeira parte desta oração, “não sou digno que entreis em minha casa”, corresponde ao rio. O sujeito da oração é a água. É um fato, uma realidade, compreensível racionalmente. A segunda parte da oração, “basta que digas uma palavra e meu criado ficará são”, corresponde à cachoeira. O sujeito é a água que se arriscou, trata-se do elemento surpresa, do raciocínio lógico revestido de sobrenaturalidade, uma maneira de desafiar à natureza que nem Jesus esperava.

Em Jesus Cristo, Deus quis se surpreender.

Ele, que é o Criador da Vida, não se surpreende nem com a vida, nem com a morte, mas com a escolha da Vida. Ele se surpreende com nossa fé. Porque somos livres para decidir. Somos livres para escolhermos a vida. Somos livres para escolhermos perder a vida.

Nós podemos escolher a nos arriscarmos por Ele assim como ele se arriscou por nós.


A maneira como um homem se arrisca em Deus recebe o nome de FÉ.


Nós podemos escolher a verdadeira Vida e essa escolha nos torna capazes de  surpreender à Deus.

E quando Deus e o homem, cada um com suas regras e sua vozes, se deixam entrar na surpresa um do outro através da oração, nasce a maior e mais potente fusão entre eles, o Criador e a criatura, frente a frente, misturando-se um ao outro, dançando no meio das chamas.

A oração é o momento onde o homem e Deus se surpreendem um com o outro.


Photo by Kevin Wenning on Unsplash

Photo by Alex Holyoake on Unsplash

Photo by Matthew Sleeper on Unsplash